Baixo Preço eleva preço do Aluguel
Extraído do Repórter Diário e Agência Estado
Por reflexo da escassez de oferta, o preço do aluguel tem sofrido sucessivas altas este ano, cenário que começa a ser considerado crítico por representantes do setor “Não há oferta”, diz José Augusto Viana Neto, presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SP). “É uma crise que vai demorar a passar.” Segundo o Sindicato das Empresas de Compra e Venda de Imóveis (Secovi), só em agosto os valores das locações em São Paulo aumentaram em média 1,7%. Nos últimos 12 meses até agosto, o aumento acumulado foi de 11%.
No entender de Viana Neto, isso ocorre porque o mercado de locação, ao contrário do de vendas, passa por uma “entressafra” em que as unidades disponíveis não são capazes de atender a demanda. Um paradoxo, pois o momento econômico é favorável ao setor, com o aumento da renda da população e do consumo. “A melhora de renda da população fez com que mais gente pudesse alugar imóveis”, diz Viana Neto.
Há dinheiro e demanda, mas o mercado não expande por falta de unidades. “Estamos vivendo uma situação muito diferente de quatro ou cinco anos atrás em que havia imóveis sobrando. O interessado tinha tantas opções que questionava até a cor da parede. Hoje, o estoque das empresas é pequeno. Quando um desocupa, tenho fila de espera”, relata Roseli Hernandes, gerente-geral da administradora Lello, que tem carteira com cerca de 8 mil imóveis locados.
Segundo ela, cerca de 70% das unidades que entraram para locação na imobiliária no mês passado foram negociadas em menos de um mês. “Não tenho imóvel encalhado, mesmo que precise de alguma reforma. Hoje, tem que pegar o que tem.”
O reflexo do aumento da renda na demanda por locação fica perceptível, segundo o presidente do Creci, quando observado o comportamento dos preços dos imóveis por zonas. Nas áreas periféricas, houve redução de preços, enquanto nas áreas centrais notou-se aumento.
Em julho, segundo o Creci, imóveis de um dormitório localizados nas zonas de classe média de São Paulo tiveram aumento de 21,72% no aluguel. O preço médio passou de R$ 395 para R$ 481. Já nos bairros de baixa renda, o aluguel de casas de três dormitórios baixou 20%, de R$ 750 para R$ 600.
Isso indica, na análise do Creci, a migração de pessoas das regiões periféricas para as áreas centrais. “Muita gente estava morando em bairros afastados da cidade, em sistemas de cortiço, favela e agora está vindo para o centro.” Outro comportamento que pressiona a procura por locação é o de famílias que estão deixando a condição de coabitação. “É muito grande o número de famílias que moravam em uma só residência e agora está conseguindo separar os lares.”
A escassez de oferta não está apenas relacionada ao aumento da procura. A baixa produção de imóveis para o perfil de renda baixa é outro fator de influência. Nos últimos anos, a oferta de imóveis novos de um e dois dormitórios, a mais procurada por essa fatia da população, foi muito tímida. “Estamos falando de imóveis de R$ 30 mil a R$ 80 mil, que são escassos no mercado”, diz Viana Neto.
Por mais que o recente boom imobiliário esteja voltando suas atenções ao segmento econômico, o grosso das vendas de imóveis é de unidades ainda em construção. “O ciclo do mercado imobiliário é longo, pois entre lançar, vender e entregar são cinco ou seis anos. Esse é o nosso maior problema”, explica o vice-presidente de Locação do Secovi, José Roberto Federighi. Até que essas habitações estejam prontas para morar e os compradores desocupem suas atuais moradias liberando ao mercado, levará anos.
Outro fator de pressão sobre os preços dos aluguéis é a alta da inflação. A maioria dos contratos antigos em vencimento é corrigida pelo IGP-M, que acumulou alta de 13,63% até agosto – mais que o dobro da inflação medida pelo IPCA, que registrou 6,16% no período. Porém, este efeito tem sido menor do que o da falta da oferta.
“Mesmo assim, o reajuste do contrato tem sido sempre menor que o do valor do mercado”, diz Federighi. Ao contrário do que era notado anos atrás, em que inquilinos conseguiam evitar o reajuste, atualmente eles evitam contestar para não correr risco de ficar sem o imóvel. “Ninguém tem discutido porque sabe que, se sair, vai encontrar imóvel mais caro.” (AE)